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Pesquisa IMEC: mulheres entram na construção civil em busca de autonomia, mas permanência esbarra no preconceito

Primeiro raio-x do Instituto Mulher em Construção, ao completar 20 anos de atuação, revela dificuldades de contratação, permanência e formalização feminina no setor



Uma pesquisa inédita realizada pelo Instituto Mulher em Construção (IMEC), ao completar 20 anos de atuação, mostra que 72,8% das participantes buscaram as oficinas para aprender a fazer reformas em casa e não depender de outras pessoas. Além disso, “adquirir conhecimento técnico na área da construção” foi apontado por 60,4% como um dos pontos mais importantes do curso. Esses são alguns dos resultados do levantamento, que é o primeiro diagnóstico estruturado realizado pelo Instituto em duas décadas de atuação. A pesquisa revela que a construção civil passou a representar, para milhares de mulheres, não apenas uma possibilidade de renda, mas também independência, autoestima, pertencimento e reconstrução pessoal.


A pesquisa foi encomendada pelo IMEC em parceria com a Olha Lá e ouviu 389 mulheres que participaram das oficinas do Instituto entre 2019 e 2025, além de empresas parceiras e lideranças da organização.


O estudo é lançado no ano em que o Instituto completa 20 anos e em um momento em que o setor da construção civil discute escassez de mão de obra, diversidade e retenção profissional, mas ainda enfrenta dificuldades para absorver e manter mulheres em um ambiente historicamente masculino.


“O setor fala muito sobre falta de mão de obra. Nós quisemos entender quem são essas mulheres, o que faz elas chegarem até aqui, quais barreiras enfrentam e por que muitas vezes não conseguem permanecer. Depois de 20 anos de atuação, sentimos que era hora de transformar experiência em diagnóstico”, afirma Camila Alhadeff, diretora executiva do Instituto Mulher em Construção.


Pesquisa aponta ainda diferenças importantes entre os perfis das mulheres atendidas no Rio Grande do Sul e em São Paulo


Enquanto no RS os cursos aparecem mais ligados à autonomia doméstica, acolhimento e reconstrução da vida cotidiana, especialmente após as enchentes, em São Paulo a empregabilidade surge com mais força: 50% das mulheres paulistas afirmam que buscaram os cursos para conseguir emprego ou mudar de carreira. O estudo apontou que para 60,4% das mulheres, adquirir conhecimento técnico na área da construção foi um dos pontos mais importantes da experiência no Instituto.


O levantamento mostra ainda que 39,3% buscaram os cursos por já terem interesse prévio na área e vontade de aprender mais sobre construção civil. Já 28,5% afirmaram que procuraram a formação com objetivo de trabalhar no setor e obter conhecimento técnico, índice que sobe para 50% em São Paulo.

Mesmo com o interesse crescente pelo setor, os dados revelam dificuldades de permanência e formalização. Hoje, apenas 29,6% das participantes possuem carteira assinada.



Ao mesmo tempo, mais de 35% atuam em trabalhos informais, autônomos e freelancers, cenário que reforça a fragilidade da inserção feminina no mercado da construção civil. Para o IMEC, esses números mostram que existe interesse das mulheres e mão de obra feminina qualificada, mas o mercado ainda enfrenta dificuldades estruturais para absorver, manter e desenvolver essas profissionais em um ambiente historicamente masculino. “Apesar de já trabalharmos com isso há 20 anos, ainda precisamos manter o letramento nas empresas e nos canteiros, criar ambientes onde elas consigam permanecer, crescer, serem contratadas formalmente e se sentirem seguras para continuar”, defende Bia Kern (foto abaixo), fundadora e presidente do Instituto Mulher em Construção.


De acordo com Bia, o IMEC tem um papel fundamental nisso. Ela diz que a o mercado precisa de atualização constante. “Quando a gente pensa em construção civil só pensa em trabalho pesado, mas nem tudo é força física. E tem muitas mulheres bem capacitadas entrando. Quando a infraestrutura de uma obra é ruim, é ruim para o homem e para a mulher”, analisa Bia. 



A pesquisa também mostra que:


23,9% não possuem atividade remunerada;

15,7% afirmam que não tinham atividade remunerada antes dos cursos e passaram a ter depois da formação;

22,4% tiveram alguma melhoria nas condições de trabalho e renda após os cursos.


Outro dado relevante é que 84,5% das participantes têm filhos, o que ajuda a explicar os desafios relacionados à permanência no mercado e à necessidade de conciliar trabalho, renda e cuidados familiares.


Além das questões econômicas, o estudo evidencia barreiras simbólicas e culturais


Nas entrevistas qualitativas, as participantes relatam a percepção de que a construção civil ainda é vista como “lugar de homem”, o que impacta diretamente a confiança, a permanência e o reconhecimento feminino no setor.


Ao mesmo tempo, os dados mostram que os principais impactos do projeto vão muito além do conhecimento técnico. Para 64% das entrevistadas, o aspecto mais importante do curso foi perceber que são capazes de realizar esse tipo de atividade. Outras 62,7% apontam como fator mais relevante fazer parte de um grupo de mulheres com histórias e vivências parecidas.


Os resultados mostram impactos profundos na autopercepção e na visão de mundo das participantes


81,2% afirmam que o projeto mudou suas ideias sobre o papel e o espaço das mulheres na sociedade;

80,7% relatam melhora na percepção sobre si mesmas;

78,9% afirmam aumento da consciência sobre violência contra a mulher;

78,4% apontam melhora na perspectiva de futuro;

72,2% relatam aumento da independência.


Na prática, os conhecimentos adquiridos nas oficinas têm aplicação direta na vida cotidiana. Segundo a pesquisa, 90% das mulheres já utilizaram o que aprenderam nos cursos. Entre as aplicações mais frequentes estão:


reformas e melhorias na própria casa (75,8%);

reformas em casas de familiares, amigos ou vizinhos (34,7%);

geração de renda por meio de bicos (17,2%);

utilização dos conhecimentos no trabalho na construção civil (16,5%), chegando a 39,2% em São Paulo.


A pesquisa também mostra que o principal aprendizado relatado pelas participantes é intangível


Mais do que técnicas de construção, as mulheres afirmam levar do Instituto mensagens relacionadas à capacidade, autoconfiança, independência e valorização feminina.


Criado em 2006, o Instituto Mulher em Construção atua na capacitação de mulheres em situação de vulnerabilidade social para atuação na construção civil e já impactou mais de 10 mil mulheres no Brasil.


Para o IMEC, o estudo marca um novo momento da organização, que passa a atuar também como produtora de conhecimento sobre gênero, trabalho e construção civil no país.


“Não estamos falando apenas de formação profissional. Estamos falando de autonomia, pertencimento, dignidade e acesso. A pesquisa mostra que as mulheres querem ocupar esse espaço. O desafio agora é o mercado estar preparado para recebê-las e mantê-las”, afirma Camila Alhadeff.


A pesquisa completa pode ser acessada no link abaixo:


Mais informações para a imprensa:

Aline Rocha: (11) 97665-4742 


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